Já sabemos que o plástico é o mau da fita. Já dizemos não e temos orgulho de ir às compras com o saco reutilizável. Já sabemos tudo o que há para saber sobre o plástico… sabemos?

É resistente, barato e à prova de água. É maleável e fácil de usar (o mais difícil é nem usar!). Demora séculos para decompor, e entretanto divide-se em tantas partes que chegam a tantos lados que é praticamente impossível encontrar uma rua, praia ou até um peixe e a maior parte da nossa comida que não tenha micro-partículas de plástico! É o fim, não o queremos mais! Mas pensaremos todos assim?

Na Índia, por exemplo, subsiste ainda em muitas partes um tabu em volta da menstruação feminina, que as obriga a excluir-se da sociedade durante esse período. As raparigas e mulheres são obrigadas a permanecer longe durante estes dias, fechadas numa cabana a que pessoalmente eu chamo de pré-histórica. Cabanas fora das localidades, onde chove e muitas vezes ficam sozinhas, onde não há cozinha uma vez que se acredita que a mulher neste estado não pode cozinhar, onde aparecem cobras e outros animais selvagens.

Sabemos nós dos perigos dos tampões e pensos higiénicos, que já contêm as malvadas micro-partículas de plástico! Mas aqui na Índia, onde o acesso a estes produtos de higiene é muito reservado, estes produtos poderiam contribuir para a solução! Muito há a fazer, a começar pela educação que deve ensinar tanto a raparigas como rapazes que a menstruação é um processo natural da vida humana, mas sem produtos que mostrem que as raparigas podem fazer a sua vida normalmente durante este período… nada feito.

O plástico continua a ser o mau da fita, sim… mas é parte de um problema maior

É impossível falar da poluição do plástico sem falarmos das desigualdades de género, por exemplo. Na maior parte das vezes, os países menos desenvolvidos são exactamente aqueles que mais sofrem as consequências das alterações climáticas.

Dentro destes países mais afectados, o grupo mais afectado são as mulheres. São elas quem gere a subsistência da família, quem trabalha a terra e cozinha para a família.

São elas quem caminha horas com um jarro à cabeça para conseguir água – caminhada que se torna cada vez mais longa à medida que o planeta aquece. Não é por acaso que a máquina de lavar roupa evoluiu mais o mundo do que a internet: as mulheres foram libertadas de horas diárias a lavar roupa e puderam assim usar as suas capacidades noutras coisas importantes!

Falta libertar as mulheres. Falta acabar com o estereótipo em volta da menstruação, dar-lhes acesso a produtos de higiene feminina sustentáveis que lhes permitam sair à rua sem vergonha – sem este estereótipo, as mulheres poderiam facilmente usar pensos higiénicos laváveis e reutilizáveis, sustentáveis e baratos! Falta dar a estas mães de família, filhas, irmãs, esposas e amigas o poder para o combate às alterações climáticas, porque elas, elas são o verdadeiro agente de mudança.

A autora escreve segundo a antiga ortografia.

Daniela Pereira
Coordenadora do projecto